
Antologia: do grego anthos, flor, e lego, escolher, o que veio a dar florilégio - é sinónima de colectânea, compilação, miscelânia, florilégio, analectos, selecta e crestomatia.
15 de fevereiro de 2010
14 de fevereiro de 2010
A Avó

A avó, nos trémulos dedos
Mal sustendo o leve fuso,
Ouve ao longe o som confuso
Duns inocentes brinquedos.
– Achando aberto o jardim,
(Diz a velha) é sempre assim:
São como as aves inquietas...
Nem eu sei quem voa mais,
Se os incansáveis pardais,
Se as minhas queridas netas –
E a avó, nos trémulos dedos
Fazendo girar o fuso,
Ouve a rir o som confuso
Dos tais longínquos brinquedos.
Eis principia a assomar,
Da cadeira no espaldar,
A face risonha e linda
Duma das netas; e a avó,
Pensando que está bem só,
Fala das netas ainda.
Fala, e nos trémulos dedos
Fazendo girar o fuso,
Ouve a rir o som confuso
Dos tais longínquos brinquedos.
Nisto um rosário, que está
Pendurado há muito já
Num dos braços da cadeira,
Escorrega e cai ao chão,
Por lhe haver tocado a mão
Daquela infantil brejeira...
E a avó, dos trémulos dedos
Deixando cair o fuso,
Já não ouve o som confuso
Dos tais longínquos brinquedos;
Mas assustada, ao sentir
O seu rosário cair,
Volta a nevada cabeça
E inda distingue o rumor,
Que faz, pelo corredor,
A neta, fugindo à pressa.
E, do cesto das meadas,
A avó, levantando o fuso,
Ouve a rir um som confuso
De longínquas gargalhadas...
Guilherme Braga
Tenho um decote pousado no vestido

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:
Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.
Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.
Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.
Maria do Rosário Pedreira
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